Rolé percorre Niterói para reencontrar as histórias e a presença indígena no território
Rio de Janeiro,
No dia 31 de maio, cerca de 90 pessoas atravessaram a Baía de Guanabara para participar do primeiro passeio do Rolé Carioca em 2026. Em Niterói, o roteiro propôs um reencontro com histórias, memórias e marcas da presença indígena que atravessam a formação da cidade — e que, muitas vezes, permanecem apagadas das narrativas oficiais.
Partindo da Praça Arariboia, o Rolé Territórios Indígenas em Niterói percorreu diferentes pontos do centro e da orla, convidando o público a olhar para a cidade a partir de outras perspectivas. Ao longo de cerca de três horas, o grupo passou pela UFF – Campus Gragoatá, pelo Museu do Ingá, pelo IACS Casarão da UFF, pela Praia das Flechas e pelo MAC Niterói.
Mais do que revisitar acontecimentos do passado, o passeio buscou refletir sobre como a presença dos povos originários continua relacionada à cidade contemporânea: nos nomes de bairros e praias, na relação com a Baía de Guanabara, na ocupação do território e nas disputas pelo direito à memória e ao reconhecimento dos territórios tradicionais.
O roteiro também colocou em evidência os processos de apagamento das referências indígenas e as iniciativas que vêm contribuindo para recuperar essas histórias por meio da educação, da arte e da ocupação dos espaços públicos. Para aprofundar essa conversa, o Rolé contou com a participação especial de Tainá de Paula, arquiteta urbanista e vereadora, e Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente e presidente da Comissão Cumpra-se da ALERJ. A comissão reconhece o Rolé como uma ferramenta de apoio ao cumprimento das leis que estabelecem o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas nas escolas.
Mesmo com a chuva que marcou o início da manhã, os rolezeiros chegaram animados para o passeio. Entre participantes que acompanham o projeto há anos e pessoas que conheceram o Rolé pelas redes sociais, a atividade reuniu diferentes públicos em torno de uma mesma proposta: conhecer a cidade a partir de histórias que ampliam e questionam os modos tradicionais de contar sua formação.
A edição de Niterói marcou ainda a inauguração da Biblioteca Itinerante do Rolé, uma das novidades do projeto em 2026. Instalada na Estação Arariboia das Barcas, a biblioteca permaneceu em Niterói entre os dias 26 de maio e 9 de junho, permitindo que o público retirasse livros gratuitamente e os devolvesse no dia do passeio. A iniciativa aproxima literatura, território e memória e reúne títulos sobre o Rio de Janeiro, suas histórias, patrimônios e culturas, além de autorias cariocas e obras alinhadas a perspectivas decoloniais. A cada novo roteiro, a biblioteca seguirá circulando pelos pontos de encontro do Rolé, criando também espaços de troca e doação de livros.
O passeio também contou com intérpretes de Libras durante todo o trajeto e monitores preparados para acompanhar pessoas com mobilidade reduzida e outras necessidades de acessibilidade. Outra novidade apresentada nesta edição foram os kits de acessibilidade, pensados para ampliar o conforto e a autonomia de pessoas neurodivergentes durante os roteiros.
Depois do percurso, a programação continuou no auditório do MAC Niterói, onde o público assistiu, em primeira mão, ao documentário “Encontro com Arariboia & Veredito Ancestral”, produzido pelo projeto Encontro com Arariboia. O filme reúne lideranças indígenas, artistas e pensadores em uma reflexão sobre memória, ancestralidade e presença indígena, com participação da professora e pesquisadora Marize Guarani.
O Rolé Territórios Indígenas mostrou que conhecer uma cidade também é reconhecer aquilo que foi apagado de suas paisagens e narrativas. Ao caminhar por Niterói, o público foi convidado a perceber que a presença indígena não está restrita ao passado: ela atravessa nomes, territórios, memórias, identidades e debates que continuam presentes no cotidiano.
Com novos públicos, novas ferramentas e novas formas de ocupar a cidade, o Rolé Carioca iniciou sua temporada de 2026 reafirmando uma de suas principais propostas: usar o território como ponto de partida para contar histórias que a história oficial muitas vezes não conta.
